“Desisti há muito de entender os deuses, de achar um significado humano para a desordem instaurada pelo divino.”
Miguel Sousa Tavares in No Teu Deserto
“Desisti há muito de entender os deuses, de achar um significado humano para a desordem instaurada pelo divino.”
Miguel Sousa Tavares in No Teu Deserto

“Fico sempre perturbado com as mulheres demasiado bonitas, nunca sei se são para ser olhadas ou evitadas, contempladas como merecem ou deixadas em paz, porque aquele dom não é culpa que se carregue para devassa alheia.”
Miguel Sousa Tavares in No Teu Deserto
Hoje é Dia da Mãe e este livro daria certamente uma excelente sugestão para oferecer neste dia especial a quem mais amamos. Hoje é também Dia do Autor Português, o que apenas vem dar mais sentido a esta proposta que hoje aqui deixo:
No Teu Deserto
Miguel Sousa Tavares
(Oficina Livro)

Um livro apaixonado. Uma paixão, ora solitária como o deserto, ora cúmplice como as estrelas. Tendo como pano de fundo toda a magia envolvente do Sahara e o espírito de uma grande aventura pelo deserto, este livro é simultaneamente uma declaração de amor / amizade / paixão e uma homenagem a uma pessoa extraordinária. Algo intimista, quase sentimos o próprio autor na pele deste narrador. Esta é a história de dois desconhecidos que se aventuram pelo deserto: os obstáculos e burocracias da viagem, as belas paisagens, os momentos mais divertidos e a descoberta de si próprios naquele ambiente catártico.
A cumplicidade entre os dois cresce e, com ela, a paixão. E, quando menos esperamos, o narrador dá lugar à própria Cláudia, e também ela expressa os seus sentimentos crescentes. É um retrato suspenso de uma paixão e de duas vidas, após o regresso ao mundo normal.
Adorei mais este livro de MST, ainda que num estilo diferente daquele a que nos habituou.
“Esta história que vos vou contar passou-se há vinte anos. Passou-se comigo há vinte anos e muitas vezes pensei nela, sem nunca a contar a ninguém, guardando-a para mim, para nós que a vivemos. Talvez tivesse medo de estragar a lembrança desses longínquos dias, medo de mover, para melhor expor as coisas, essa fina camada de pó onde repousa, apenas adormecida, a memória dos dias felizes.”

"Costumava dizer que, na vida, ou se faz alguma coisa de verdadeiramente importante ou é melhor não fazer nada. Viver ao sabor da corrente, como ele fazia, saboreando as coisas boas e agradáveis e evitando com destreza os alçapões, as prisões, os compromissos. Odiava a fé e os fanatismos, na religião como na política, na vida social como no trabalho. Nada lhe parecera ainda verdadeiramente importante para o incomodar seriamente, para trocar o conforto dos seus dias pelo desconforto de uma ambição. Muitos intelectuais do seu tempo pensavam como ele mas pareciam sofrer esse vazio de causas e de ambições como um mal: ele via-o como um privilégio."
Miguel Sousa Tavares in Equador
Depois de uma prolongada ausência, volto para sugerir uma obra de peso:
Equador
Miguel Sousa Tavares
(Oficina do Livro)
Após ler este livro só posso lamentar não tê-lo feito mais cedo. As personagens são desenvolvidas de forma complexa e profunda como só MST tão bem sabe: Luís Bernardo é um idealista a viver na cidade de Lisboa, que defende ideias contra a escravatura e que, de repente, se defronta com o desafio da sua vida... O Rei D. Carlos pede-lhe que vá em serviço do país para as colónias de S.Tomé e Príncipe, com o objectivo de se tornar governador e fazer crer os ingleses de que não existe trabalho escravo nas mesmas.
Pela frente de Luís Bernardo surgirão todo o tipo de conflitos e adversários: os donos da roça que pretendem continuar a usar os seus empregrados de forma desumana e praticar uma escravatura disfarçada, vários funcionários que vêem nele um intruso e um alvo a abater, ...
É no próprio cônsul inglês, David, e na sua lindíssima mulher, que Luís Bernardo vai buscar alguma força para continuar a sua missão, ao desenvolver uma excelente relação com o casal.
Mas até quando vai Luís Bernardo aguentar o isolamento na colónia?
Irá resistir contra tudo e todos? Será capaz de lutar contra o fracasso dos seus ideais e objectivos?
Entre a missão e a paixão, o destino de Luís Bernardo vai sendo traçado em páginas e páginas de suspense e interesse crescentes.
Recomendo! Um dos melhores livros que já li...
"Luís Bernardo era quase da idade do Rei, mas, ao contrário deste, era um homem magro e elegante, que se vestia com aquela sobriedade só aparentemente distraída que é característica dos verdadeiro gentlemen. D. Carlos de Bragança parecia um pacóvio fardado de Rei; ele parecia um príncipe disfarçado de burguês. Tudo, na sua figura, na maneira como se vestia, na sua forma de andar, denunciava a sua atitude perante a vida: cuidava da aparência, mas não tanto que isso se transformasse num incómodo; estava a par da moda, do que se passava lá fora, mas não prescindia do seu próprio critério; passar despercebido era motivo de angústia, ser demasiado notado, apontado a dedo, era-lhe constrangedor. A sua qualidade era não alimentar demasiadas ambições, o seu defeito, o de não alimentar, provavelmente, ambição alguma."

"Não esperes nunca de mim que eu seja fiel a qualidades que não tenho. O que podes é contar com as que tenho, porque nessas não te falharei nunca."
Miguel Sousa Tavares in Equador


"Em toda a sua curta vida, nunca Diogo tinha imaginado um tal ambiente de orgia, de festa a tresandar a vinho, a fumo, a excesso, a tentação de mulher e a perdição de homem. Era como um catálogo vivo de todos os vícios possíveis de um homem, não faltando sequer, junto ao corredor de passagem para a cozinha, uma mesa onde quatro fregueses, de rosto silencioso e fechado, jogavam cartas, alheios ao ruído ensurdecedor e à confusão reinantes. Pela primeira vez na vida, Diogo entreabria a porta de um mundo onde os homens deitavam as cartas e se perdiam, como crianças, numa licenciosidade irresponsável. E soube, então, que pertencia a esse mundo, soube por que razão o pai o trouxera naquela viagem."
Miguel Sousa Tavares in Rio das Flores